Indispensável
no cardápio do brasileiro à carne bovina
é um dos alimentos mais ricos
em proteínas, vitaminas e minerais como o ferro. Considerada
um dos
itens mais nobres na dieta humana, a carne bovina é
também reflexo de
ascensão social, presente, portanto, apenas nas classes mais
abastadas
da sociedade. Mas você sabe de onde vem essa carne? Estudos
recentes
revelam uma complexa rede que une nossos hábitos do dia- a-
dia à
destruição da Amazônia. Dessa maneira,
a carne brasileira tem relação
direta com as questões socioambientais que o mundo se
vê obrigado a
enfrentar hoje para garantir seu futuro.
Atualmente o Brasil
ao lado da Austrália é o maior exportador mundial
de carne bovina.
Nosso rebanho beira a casa de 206 milhões de
cabeças de gado, 74
milhões apenas na Amazônia, onde há
mais boi do que gente, isso sem
contar os inúmeros criadores e abatedores clandestinos. Essa
liderança,
no entanto, coloca o país entre os principais
vilões no combate ao
aquecimento global. Para manter esta posição, o
setor agropecuário se
tornou o principal vetor para a derrubada das matas. A estimativa,
segundo estudo realizado em 2008 pelas ONGs Repórter Brasil
e Papel
Social Comunicação, é de que 78% do
desmatamento na Amazônia tenha sido
motivado pela pecuária.
O problema ocorre principalmente pela
forma predatória como se dá essa
expansão pecuária na Amazônia, que
utiliza áreas protegidas de proteção e
conservação ambiental - pelo
menos no papel - para fazer pastos. Primeiro, tratores e motos-serra
derrubam tudo que encontram pela frente. Segundo, toda madeira que
tenha valor comercial é retirada da floresta, na maioria das
vezes de
forma ilegal. E, por fim, tudo que restou da floresta é
incendiado.
Esta última etapa é utilizada pelos criadores
para acelerar o processo
de troca da mata nativa pelo capim, que servirá de pasto
para os
animais. Além disso, toda vez que a floresta é
incendiada milhões de
partículas de dióxido de carbono que ficam
armazenadas nas plantas são
despejadas na atmosfera, potencializando ainda mais o efeito estufa.
Para
o professor e pesquisador Guilherme Leite da Silva Dias, do Depto. de
Economia da Universidade de São Paulo (USP), a maneira como
se cria
gado no Brasil, em especial na Amazônia,
proporcionará graves
consequências para o futuro do planeta se não for
alterada. Uma forma
de solucionar o problema, segundo o professor, seria trocar o modelo
atual de criação por uma “pastagem
intensiva sustentável”, onde a
produção é intensificada na
área que já foi degradada, principalmente
devido à pobreza do solo da região. “A
forma de explorar com o
desmatamento seguido de queimada exaure o solo em 20 anos. Com a
pastagem intensiva sustentável, que inclui também
repor a fertilidade
do solo, podemos diminuir este período de
degradação do solo para 8
anos”, explica.
Dias afirma que do total de pecuaristas do
país, 90% permanecem trabalhando de maneira
predatória: “Se
continuarmos com este sistema de agropecuária na
Amazônia, em 20 anos
aqueles bois terão comido tudo aquilo”. Guilherme
Dias, que já integrou
a equipe econômica do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e
Social (BNDES), acredita que algumas medidas econômicas
adotadas no
passado pelo setor agropecuário causaram custos altos demais
para
demandas fixas: “Vivemos uma crise de endividamento,
principalmente com
a distribuição de crédito. Hoje existe
muita terra para pouca
produtividade e a política de crédito
é fundamental para o processo de
desenvolvimento”.
Um caso emblemático para ilustrar a expansão
da agropecuária na Amazônia é
São Felix do Xingu, cidade no sul do
Pará, que em 1997 tinha cerca de 30 mil cabeças
de gado em uma área de
84 mil quilômetros quadrados, de acordo com o Sindicato dos
Produtores
Rurais (SPR) do município. Em dez anos, o número
passou para 1,7 milhão
de animais. No Mato Grosso, os números também
impressionam. De acordo
com um diagnóstico do Ministério da Agricultura,
Pecuária e
Abastecimento, em 2007 havia 39 frigoríficos funcionando em
24
municípios, somando uma capacidade de abate de 22 mil
cabeças por dia.
O mesmo estudo identifica ainda seis unidades em processo de
ampliação
e nove plantas em construção - o que deve dobrar
o número de abates.
Outro
fator preocupante, mas que ainda é pouco discutido,
é que durante o
processo digestivo dos bois, grandes quantidades de gás
metano são
emitidas na atmosfera. O que é pior: o gás metano
é 23 vezes mais
prejudicial que o dióxido de carbono para o efeito estufa.
Dessa
maneira, se levarmos em consideração que um boi
emite cerca de 58 kg de
gás metano por ano, e multiplicarmos este número
pela quantidade de
bois do país (206 milhões), teremos 10
milhões de toneladas de metano
sendo despejadas por ano na atmosfera. Em outras palavras, significa
que o setor agropecuário emite a mesma quantidade de carbono
que a
indústria e o transporte emitiam 1994 no país.
Portanto, fica
fácil de entender porque o Brasil já é
o quarto maior poluidor mundial,
lançando anualmente na atmosfera 1 bilhão de
toneladas de carbono e 13
milhões de metano. Para o jornalista e ambientalista
Washington Noaves,
o problema é muito sério e requer medidas
urgentes. “Estamos consumindo
cerca de 30% além do que o planeta pode repor. Esses
problemas ameaçam
a continuação humana no planeta”,
afirma Novaes.
O
futuro está em nossas mãos
Para
pôr um freio no ritmo de destruição do
planeta, o consumidor, no
entanto, não precisa abrir mão de comer carne,
comprar móveis ou usar
óleo de soja, mas terá que riscar da sua lista de
compras aquelas
marcas que insistem em violar princípios éticos e
de responsabilidade.
O ‘consumo consciente’, que em poucas palavras pode
ser traduzido como
um consumo com consciência de seu impacto e voltado
à sustentabilidade,
é uma tendência mundial que tem ganhado
espaço no mercado e atraído
cada vez mais adeptos, os chamados ‘consumidores
verdes’.
Pensando
nisso, muitas empresas estão
investindo em produtos ecologicamente corretos. São produtos
não-tóxicos, feitos de materiais
recicláveis, duráveis e com o mínimo
de embalagem, ou seja, produtos que procuram extrair a menor quantidade
possível de recursos naturais durante toda sua cadeia
produtiva,
tentando com isso, preservar o equilíbrio natural do
planeta.
Entretanto, muitas empresas sob este ‘signo verde’
utilizam-se
indevidamente desta bandeira para agregar valores aos seus produtos e
iludir seus consumidores, fazendo-nos crer que a empresa respeita a
natureza.
Por outro
lado, o mundo tem discutido
maneiras de como comprovar que uma empresa que se diz ecologicamente
correta de fato o seja. Surgem, portanto, os selos verdes, as
compensações ambientais, os processos de
auditoria sustentáveis, ou
seja, uma enorme quantidade de nomes e processos para atestar que um
produto seja realmente ecologicamente correto. Ao consumidor -
principal agente transformador - vale exigir que sua marca respeite a
natureza e se enquadre nos novos padrões de
produção sustentável.
Fonte: Amazonia.com